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terça-feira, 8 de abril de 2008

Equilíbrio

Com o pretexto de criar um coração, invento novas células, rearranjo vasos sanguíneos, martelo, martelo, ponho o dedo na tomada pra simular um marcapasso, os vasos gangrenam, as veias se desviam pra me manter vivo, tento me manter no limiar, e me acho um homem de sorte por estar neste estado, por estar andando entre as luzes e as trevas, por estar flutuando a noite em busca de um corpo, ou por sonhar com mutilação deveras, como quem diariamente faz da escada rolante, ou do simples atravessar a rua uma roleta russa de um surto, um surto que pode ou não significar a passagem concreta ao lado da não-existência. Covardia, largar minhas células mortas desta forma, sem a completa degradação, parece que realmente abandonaria esta casca se soubesse como trocar de morada, seria bem interessante, vestir uma roupa diferente a cada dia, viver uma nova vida a cada dia, novas experiências , novo olhar a cada vestígio de mudança, novo truque, novas vítimas...... Vasos e veias me inserem no mundo agora, alimento deixa-me são, forte, como energia para meus neurônios que esticam e esticam, pelo menos eles esticam, pelo menos meu orgulho segura cada neurônio e os deixam em prontidão, que bom que consigo raciocinar novamente, estava ficando preocupado com esses pensamentos surtados, preocupado demais com os vícios de uma cabeça completamente adaptável e livre de preconceitos, surtei, não demorou para ele vir, e veio mesmo, surto, o surto, senti o primeiro surto da minha vida como uma experiência, que com certeza ficou cravada no meu codigo genético e até as próximas três gerações vão levá-lo consigo, foi como o nascer, como levar um tapa na cara, não um tapinha indolor de mão aberta e sonoro, mas uma bofetada de mão fechada que me tirou o equilíbrio e como um bêbado, ainda em queda respondi a tudo e a todos com palavras trôpegas e desequilibradas, como um bêbado fui um maestro regendo um pouco dos neurônios que consegui achar e como um maestro, desabafar para tudo e para todos tudo o que sentia, como um bêbado desviei dos carros meio que querendo que eles fizessem seu papel e não desviassem sua rota, ou que as tragédias fossem mais comuns, mas como um maestro regia o réquiem da minha morte, blindava a couraça da vaidade e me permanecia em pé . Me senti um marionete do destino, um Romeu, um Buendia, um africano.
Foi uma noite de terror, primeiro o surto, o choro, o colapso, a desculpa pelos lapsos, o pós-lapso. E em seguida as tentativas de manter a calma, o calor exalado parecia aquecer o mundo, o coração como um tambor fazia estremecer o ar que jazia parado, o pesadelo, porém o abraço confortador, o beijo, e então a singularidade do beijo é subjulgada pela nova ciência criada que parecia entorpecer até a mais singela dança, e a alma em mil lugares ao mesmo tempo, toda uma ciência voltada para explicar uma teoria completamente errada e incontrolavelmente embutida na cabeça , a incerteza, a obscuridade, o medo, o destino, tudo fazia levar ao precipício, até os primeiros raios do nascer do sol traziam à metáforas de que já era hora de acabar com tudo, o desconhecido é o pior inimigo da razão. E a razão torna-se frágil quando o enfrenta. O desconhecido é um demônio de sete dedos e todos eles apontavam para a minha cabeça. O desconhecido só não contava com uma vantagem do meu corpo imperfeito, não contava com o meu signo, não contava com a bipolaridade, ela então salvou a minha vida. Me transgrediu e me atirou no outro lado do meu cérebro, num outro hemisfério da razão. Acho que foi sorte e azar ao mesmo tempo, mais uma vez é o equilíbrio então, e não se pergunte que balança fez essa medição. Porquê nem eu sei explicar e nem sei também como o sol nasceu neste dia.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sou a soma dos outros, do desconhecido, decomposto, do lacrimal. Sou o som atrás da porta, se fosse sua voz estaria bem distante porque dela se fez o silencio, porque quero que essa voz muda jamais volte a esbravejar, sem que nunca tenha me levantado a voz. É nestas horas que queria ser mudo, queria nunca ter falado alguma coisa audível, ou mesmo decifrável, seria um esquisito mendigo que se frustraria por saber que não o entenderiam, mesmo precisando de toda a paz e serenidade pra canalizar as influências de minha cabeça. Sou a soma de pasta e cal, sou a tinta que escorre, quando deveria subir a parede, aquela infinidade de pontos que parecem completamente sem sentido quando visto apenas pelos membros, pontos que se movimentam involuntariamente, cores que passam paralelas ao meu ser, aos meus órgãos, cores que saem dos meus olhos, cores que te vejo e me pergunto se não me enganam (mas eu quero me enganar!). Sou isso mesmo.