Com o pretexto de criar um coração, invento novas células, rearranjo vasos sanguíneos, martelo, martelo, ponho o dedo na tomada pra simular um marcapasso, os vasos gangrenam, as veias se desviam pra me manter vivo, tento me manter no limiar, e me acho um homem de sorte por estar neste estado, por estar andando entre as luzes e as trevas, por estar flutuando a noite em busca de um corpo, ou por sonhar com mutilação deveras, como quem diariamente faz da escada rolante, ou do simples atravessar a rua uma roleta russa de um surto, um surto que pode ou não significar a passagem concreta ao lado da não-existência. Covardia, largar minhas células mortas desta forma, sem a completa degradação, parece que realmente abandonaria esta casca se soubesse como trocar de morada, seria bem interessante, vestir uma roupa diferente a cada dia, viver uma nova vida a cada dia, novas experiências , novo olhar a cada vestígio de mudança, novo truque, novas vítimas...... Vasos e veias me inserem no mundo agora, alimento deixa-me são, forte, como energia para meus neurônios que esticam e esticam, pelo menos eles esticam, pelo menos meu orgulho segura cada neurônio e os deixam em prontidão, que bom que consigo raciocinar novamente, estava ficando preocupado com esses pensamentos surtados, preocupado demais com os vícios de uma cabeça completamente adaptável e livre de preconceitos, surtei, não demorou para ele vir, e veio mesmo, surto, o surto, senti o primeiro surto da minha vida como uma experiência, que com certeza ficou cravada no meu codigo genético e até as próximas três gerações vão levá-lo consigo, foi como o nascer, como levar um tapa na cara, não um tapinha indolor de mão aberta e sonoro, mas uma bofetada de mão fechada que me tirou o equilíbrio e como um bêbado, ainda em queda respondi a tudo e a todos com palavras trôpegas e desequilibradas, como um bêbado fui um maestro regendo um pouco dos neurônios que consegui achar e como um maestro, desabafar para tudo e para todos tudo o que sentia, como um bêbado desviei dos carros meio que querendo que eles fizessem seu papel e não desviassem sua rota, ou que as tragédias fossem mais comuns, mas como um maestro regia o réquiem da minha morte, blindava a couraça da vaidade e me permanecia em pé . Me senti um marionete do destino, um Romeu, um Buendia, um africano.
Foi uma noite de terror, primeiro o surto, o choro, o colapso, a desculpa pelos lapsos, o pós-lapso. E em seguida as tentativas de manter a calma, o calor exalado parecia aquecer o mundo, o coração como um tambor fazia estremecer o ar que jazia parado, o pesadelo, porém o abraço confortador, o beijo, e então a singularidade do beijo é subjulgada pela nova ciência criada que parecia entorpecer até a mais singela dança, e a alma em mil lugares ao mesmo tempo, toda uma ciência voltada para explicar uma teoria completamente errada e incontrolavelmente embutida na cabeça , a incerteza, a obscuridade, o medo, o destino, tudo fazia levar ao precipício, até os primeiros raios do nascer do sol traziam à metáforas de que já era hora de acabar com tudo, o desconhecido é o pior inimigo da razão. E a razão torna-se frágil quando o enfrenta. O desconhecido é um demônio de sete dedos e todos eles apontavam para a minha cabeça. O desconhecido só não contava com uma vantagem do meu corpo imperfeito, não contava com o meu signo, não contava com a bipolaridade, ela então salvou a minha vida. Me transgrediu e me atirou no outro lado do meu cérebro, num outro hemisfério da razão. Acho que foi sorte e azar ao mesmo tempo, mais uma vez é o equilíbrio então, e não se pergunte que balança fez essa medição. Porquê nem eu sei explicar e nem sei também como o sol nasceu neste dia.
3 comentários:
Achei magnífico e sensivelmente apurado.
Valdo.
Quando estamos em situações limites a veia poética aflora com intensidade.
Esplendido...
A sensibilidade e a liberdade trandmitidas... tocantes...
Continue a escrever!!
Vc tem a mão!!
Bjinhos!!
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